HISTÓRIA DA ENG. DE SEGURANÇA

 
A ENGENHARIA DE SEGURANÇA NO BRASIL
*Antônio Carlos Barbosa Teixeira
 INTRODUÇÃO

A Prevenção de Acidentes, realizada sob a égide do Ministério do Trabalho , recebeu, de início, importante contribuição da área médica, a cujas mãos chegavam as mais importantes conseqüências dos acidentes do trabalho - as lesões pessoais. Tal circunstância não só explica a liderança assumida pela medicina nos primeiros passos dados em direção à prevenção de acidentes como também esclarece porque esses passos foram dados com vistas especialmente a aspectos conseqüenciais. E mais do que isso, explica a visão conseqüencial que, até hoje, caracteriza certas práticas prevencionistas em detrimento de outros caminhos que favorecem a pesquisa das causas. Foi assim que se desenvolveu a prática de realizar e divulgar estatísticas de acidentados, rotulando-as de estatísticas de acidentes. E com isso deixava-se de considerar os acidentes de que não decorressem lesões. A respeito de um acidente de que não resultasse lesão ouvia-se dizer: "não foi nada". Se não havia acidentado não havia acidente.
Essa maneira de considerar o assunto, embora não fosse razoável, explicava-se pelo interesse primordial pelo acidentado, que caracterizava os que assim agiam. Juntam-se a isso as características da profissão médica para a qual o estudo das lesões pessoais é de sua indiscutível competência e merece todo o seu interesse. E, assim, governo, empregadores e empregados adquiriam consciência da necessidade de encarar o problema de prevenção do acidente, o primeiro ditando as bases de uma legislação que visava a proteger o trabalhador da agressividade do ambiente de trabalho e os últimos obedecendo o estipulado nessa legislação, na medida de suas possibilidades.

 O EMPRESARIADO

É então que o empresariado começa a despertar para o aspecto econômico dessa prevenção e espalha-se a idéia de que a prevenção pode ser um bom negócio. A aceitação dessa ascertiva muito contribuiu, sem dúvida, para a fundação, em 1941, da ABPA, a Associação Brasileira para Prevenção de Acidentes. Uniam-se, aí, os esforços de empresários, sensibilizados pelo papel negativo dos acidentes na economia, com a ação de técnicos interessados em contribuir para a prevenção de acidentes. Mas, depois de Heinrich, em 1929, pesquisando conseqüências de acidentes, haver concluído que de 330 acidentes estudados apenas 30 tinham dado origem a lesões pessoais, dos quais só uma de maior gravidade não seria razoável continuar abandonando mais de 90% de informações provenientes de acidentes sem lesão. E contra a idéia de buscar a prevenção dos acidentes no estudo de suas conseqüências havia a inexistência de proporcionalidade entre a gravidade das lesões pessoais decorrentes de acidentes e a gravidade potencial desses acidentes. Não se tratava, pois, de agir, a semelhança do que se sugere nos contos policiais, onde por vezes o autor do delito é investigado através da pesquisa da lesão da vítima. O caminho seria outro e isso tornava-se mais claro a medida que se desenvolvia, no País, a grande indústria. A indústria do petróleo, a siderurgia e tantas outras que começavam a funcionar, exigindo capacidade técnica, que não contava com a ajuda de tradição. Impunha-se novo enfoque para enfrentar as novas técnicas. Não seria lógico, pois, continuar a abandonar a análise dos acidentes sem lesão. E era necessário passar a estudar a problemática do acidente a partir de suas causas. Nessa altura tornou-se possível sensibilizar a área da engenharia, até então preocupada principalmente com os assuntos ligados diretamente à produção, para a análise das causas do acidente. Mas até que a engenharia, preocupada com o que se referia diretamente à produção, passasse a interessar-se profissionalmente pela pesquisa das causas do acidente havia um longo caminho a percorrer.

 O SERVIÇO ESPECIALIZADO

Passaremos a tratar da legislação que surgiu em decorrência do estabelecido na Portaria nº 3237/72 do então Ministério do Trabalho e Previdência Social. Inicialmente gostaríamos de lembrar que em outubro de 1972, durante a realização do 11º CONPAT, em Curitiba, representantes das entidades e empresas abaixo relacionadas discutiram a necessidade de elevar a carga horária prevista para os cursos de especialização em engenharia de segurança e em medicina do trabalho, fixando-a em um mínimo de 360 horas, com o que concordaram os representantes do DNSHT e da Fundacentro. Estiveram presentes as seguintes entidades e empresas: DNSHT, FUNDACENTRO, SOBES, ABPA, INPS, UFP, SENAI, COHISI DO SESI, PETROBRÁS, IBM, GM, VW, ANTARCTICA e FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO PARANÁ. Foi um primeiro passo para o aperfeiçoamento do preparo dos profissionais a serem utilizados. Logo depois o assunto foi reestudado, como veremos adiante, sendo fixado, no caso da engenharia de segurança, a carga horária mínima de 600 horas (Parecer 19/87, do Conselho Federal de Educação). Acontece que a Portaria 3237 previa a existência de especialistas, dava a competência das áreas em que agiriam, mas não fixava a forma pela qual seriam especializados.

 A POSTURA DA SOBES

Promoveu, então, a SOBES, no Clube de Engenharia, a reunião das entidades ligadas à Prevenção de Acidentes, com o fim de estabelecer as bases da especialização desejada. Era a primeira vez que essas entidades se reuniam para discutir problemas de interesse comum. Além de cuidar do preparo dos profissionais previstos na portaria que analisamos, caberia realizar estudos para homogenizar os seus ditames com a legislação regulamentadora do exercício da engenharia, arquitetura e agronomia. Esses estudos foram realizados pela SOBES e serviram de base ao projeto de lei que, apresentado no Senado pelo Eng.º Saturnino Braga dispunha a respeito da especialização de Engenheiros e Arquitetos em Engenharia de Segurança do Trabalho e da profissão de Técnico de Segurança do Trabalho. Assim, em 27 de novembro de 1985 era sancionada a Lei nº 7.410 que, em seguida, foi regulamentada pelo Decreto nº 92.530, de 9 de abril de 1986. Antes de entrar no comentário dessas e outras medidas regulamentadoras que se seguiram é importante lembrar que, em julho de 1977, a SOBES, a convite do Ministério do Trabalho compareceu ao Departamento de Assuntos Universitários do MEC, com o fim de discutir o ensino de tópicos relativos à Engenharia de Segurança nos currículos plenos de Engenharia. O programa então proposto, aprovado pelo Conselho Federal de Educação, contribuiu de maneira muito positiva para esclarecer concluintes de cursos das várias modalidades de engenharia a respeito dos objetivos dessa especialização. Nunca é demais insistir na importância de tal providência, uma vez que, devendo a engenharia de segurança desenvolver suas atividades pelo contato com engenheiros de diversas modalidades e faltando-lhe tradição para ser aceita com entusiasmo pelas áreas que deve assessorar do ponto de vista da defesa do elemento humano, é de aplaudir qualquer iniciativa que vise a esclarecer a importância de sua contribuição.

 

UM POUCO DE HISTÓRIA AJUDA... (André Lopes Netto)

Cabe um retrospecto , sem qualquer sombra de saudosismo, sobre duas épocas distintas da história da Engenharia de Segurança em nosso país para uma melhor avaliação daquilo que se pretenda considerar o perfil ideal do engenheiro de segurança do trabalho. Em novembro de 1960, tive a oportunidade ( e felicidade) de concluir o Curso Básico de Saúde Pública para Engenheiros - especialização em Higiene Industrial - ministrado pela Escola Nacional de Saúde Pública do Ministério da Saúde.

Não tenho notícias da existência de outro curso anterior voltado para a Higiene Industrial e Prevenção de Acidentes, em nível de especialização para engenheiros.

O currículo do curso ( abaixo transcrito) espelha a visão dominante, naquela ocasião, fruto da semente plantada no Brasil pelo Engº J.J.Bloomfield - Assistente Chefe da Divisão de Higiene Industrial do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos e cultivada pela equipe do SESP - Serviço Especial de Saúde Pública.


CURSO BÁSICO DE SAÚDE PÚBLICA PARA ENGENHEIROS
ESPECIALIZAÇÃO EM HIGIENE INDUSTRIAL

TÓPICOS

Nº DE HORAS AULAS

QUÍMICA

98

MICROBIOLOGIA

73

BIOLOGIA APLICADA

52

ESTATÍSTICA APLICADA

53

FÍSICO-QUÍMICA

54

PARASITOLOGIA

43

EPIDEMIOLOGIA  E PROFILAXIA

48

FISIOLOGIA HUMANA

44

SANEAMENTO GERAL

70

HIGIENE  DAS CONSTRUÇÕES

29

FUNDAMENTOS SÓCIO-ECONÔMICOS

17

ILUMINAÇÃO, RUÍDO, VENTILAÇÃO E CONDICIONAMENTO DO AR

133

PREVENÇÃO DE ACIDENTES DO TRABALHO

60

EDUCAÇÃO SANITÁRIA

21

ADMINISTRAÇÃO GERAL E PÚBLICA

35

ADMINISTRAÇÃO SANITÁRIA

37

TOXICOLOGIA INDUSTRIAL

29

ANÁLISE DO AR

51

POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA

43

CONTROLE DE RADIAÇÕES

32

ESTÁGIO FINAL

180

CARGA HORÁRIA TOTAL

1202


Preliminarmente , buscava-se nivelar os conhecimentos básicos dos engenheiros através da revisão de química, físico-química, biologia aplicada, microbiologia e estatística ( num total de 330 horas)
Observa-se pela leitura da grade transcrita que o enfoque principal do curso estava direcionado aos riscos inerentes ao trabalho e ao tratamento que lhes deveria ser conferido por profissionais qualificados(num total de 259 horas), conquanto não abordasse enfaticamente análise de riscos , nem tocasse em gerenciamento de risco, embora esse assunto fosse visto pela ótica da Administração Sanitária.

O currículo do curso não objetivava atender à área de Prevenção e Combate a Incêndio, vez que, entendia o Ministério da Saúde que tal assunto fugiria aos objetivos do curso.

Cumpre salientar que somente anos após foi editada a Portaria 3237/72, colocando no âmbito do Ministério do Trabalho a especialização de Engenharia de Segurança .

Os portadores do certificado de conclusão desse curso foram considerados pela referida Portaria como "engenheiros de segurança do trabalho".

"Portaria 3237/72

Art. 5º . São considerados engenheiros de segurança do trabalho.....................................................................................................................

I . conclusão do curso de especialização em engenharia de segurança do trabalho ou higiene industrial ministrado por universidade ou instituição especializada................................"

Após a promulgação da Lei 7.410/85, a especialização em Engenharia de Segurança passou do âmbito do Ministério do Trabalho para o Sistema CONFEA/CREA e o curso assumiu status de pós-graduação, sendo ministrado em universidades, sujeito a orientação do Ministério da Educação, com o currículo conforme o Parecer 19/87 do SESu, aprovado pelo Conselho Federal de Educação, a seguir transcrito:

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO

DISCIPLINA

CARGA HORÁRIA (H)

1. INTRODUÇÃO À ENGENHARIA DE  SEGURANÇA DO TRABALHO

20

2.PREVENÇÃOE CONTROLE DE RISCOS EM MÁQUINAS,EQUIPAMENTOS E INSTALAÇÕES

80

3. HIGIENE DO TRABALHO

140

4.PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE

45

5.PROTEÇÃO CONTRA INCÊNDIOS E EXPLOSÕES

60

6. GERÊNCIA DE RISCOS

60

7.PSICOLOGIA NA ENGENHARIA DE SEGURANÇA, COMUNICAÇAO E TREINAMENTO

15

8.ADMINISTRAÇÃO APLICADA À ENGENHARIA DE  SEGURANÇA

30

9. O AMBIENTE E AS DOENÇAS DO TRABALHO

50

10. ERGONOMIA

30

11. LEGISLAÇÃO E NORMAS TÉCNICAS

20

12. OPTATIVAS  ( COMPLEMENTARES)

50

TOTAL

600


Essa nova grade acrescenta tópicos importantes , tais como : Prevenção e Controle de Riscos em Máquinas, Equipamentos e Instalações, Proteção contra Incêndio e Explosões e Ergonomia. Porém restringe , drasticamente, o estudo dos riscos ambientais. O que nos chama de imediato a atenção é a diferença de carga horária entre as duas grades .

Paralelamente, se compararmos os dois currículos com as atribuições previstas para os engenheiros de segurança pela Resolução 359 do CONFEA, chegaremos à conclusão que para atendê-la com eficiência seria necessária uma simbiose dos dois currículos, com alguns acréscimos de tópicos.

Também é necessário reconhecer que quinze anos são passados desde que o Parecer 19/87 foi emitido e, nesse intervalo de tempo, grandes avanços tecnológicos foram realizados, trazendo como conseqüência novos campos de atuação e desafio para a Engenharia de Segurança

Julgo, portanto, e nesse ponto emito apenas a minha opinião pessoal, que seria útil para o desenvolvimento das atribuições que foram delegadas aos engenheiros de segurança, fossem feitas algumas alterações no currículo do curso de especialização, ampliando os conhecimentos ministrados, como a seguir:

· Agentes químicos

- revisão de conhecimentos de química e físico-química;

- trabalho de campo , com utilização de equipamentos adequados.

· Agentes biológicos

- conhecimentos de biologia e microbiologia

- conhecimentos de procedimentos para avaliação.

· Agentes físicos

- conhecimentos mais profundos sobre radiações ionizantes e não ionizantes;

- trabalhos em campo em radioproteção: gamagrafia, raios x e medidores nucleares;

- trabalhos em campo com microondas, ultravioleta e laser, por suas grandes aplicações na indústria e comunicações.

Naturalmente as alterações no currículo exigiriam uma carga horária bastante mais ampla, o que mereceria por parte dos profissionais envolvidos com o ensino da Engenharia de Segurança um estudo adequado do problema.

* Antônio Carlos Barbosa Teixeira, fundador e ex-presidente da SOBES,
é o patrono da Engenharia de Segurança do Trabalho no Brasil e na América Latina.

 

Cronologia Histórica da Segurança do Trabalho

  • Século IV a.C.
    Hipócrates reconhecimento e descrição de envenenamento por chumbo;

  • Século I
    Plínio I e Galeno, em Roma, fizeram referência ao envenenamento decorrente do trabalho com enxofre, zinco e vapores ácidos;

  • 1473
    Ulrich Ellenbog, na Alemanha, escreveu sobre a doença do ourives provocadas pelos gases usados no seu trabalho;

  • 1556
    Georgios Agricola, na Alemanha já lidava com doenças dos mineiros;

  • 1713
    Bernadino Ramazzini, Itália - surge o tratado de referência no campo da medicina ocupacional, do médico ;

  • 1775
    Percival Pott, na Inglaterra, descreve o câncer dos limpadores de chaminés;

  • 1801
    Thomas Beddoe, descreve condições de higiene do trabalho;

  • 1831
    Charlies T. Thackrah, descreve doenças relacionadas ao trabalho em geral;

  • 1833
    promulgação do Ato das Fábricas, passou a considerar evitáveis as doenças tais como
    • "cólica do pintor" (absorção de chumbo das tintas e que provocava cãimbras e dores abdominais);
    • "tísica" (mineiros que inalavam poeira de sílica e se enfraqueciam seriamente - silicose);
    • "tremedeira dos chapeleiros" (exposição a vapores de mercúrio do nitrato de mercúrio e usado na atividade dos chapaleiros);

  • 1911
    começa-se a implementar com maior amplitude o tratamento médico industrial;

  • 1943
    Criação da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT

  • 1944
    Oficialmente instituida a criação da CIPA - Comissão Interna Para Prevenção de Acidentes, no Brasil

  • 1949
    criada a primeira CIPA, na área portuária, na Companhia Docas de Santos

  • 1966
    Criada a FUNDACENTRO - Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina no Trabalho

  • 1971
    Fundada a SOBES - Sociedade Brasileira de Engenharia de Segurança

  • 1974
    Fundação da Associação Paranaense dos Engenheiros de Segurança - APES

  • 1978
    • Criação das Normas Regulamentadoras
    • Fundado o Grupo CIPA, editor da Revista Cipa

  • 1984
    • 26 de novembro
      Criada a ANEST - Associação Nacional de Engenharia de Segurança do Trabalho

  • 1985
    Fundação da Associação Latino Americana de Engenharia de Segurança do Trabalho - ALAEST

  • 1987
    Lançamento da Revista Proteção.

  • 1988
    Promulgação da Constituição Federal de 1988, que estebelece direitos relativos a Segurança do Trabalho aos trabalhadores.

  • 1992
    • 10 de maio
      Criada a FENATEST - Federação Nacional dos Técnicos de Segurança do Trabalho.

  • 2001
    • 8 de agosto
      Ratificação da Convenção OIT 174, que trata de Grandes Acidentes Industriais
    • Aparecem na Internet os primeiros grupos de discussão sobre Saúde e Segurança do Trabalho
    • 12 de setembro
      Criação da AreaSeg

  • 2002
    NR 30 - Segurança no Trabalho Aquaviário

  • 2003
    Criação de novas normas e instruções normativas para o Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP)

Colaboradores:
Guanito Filho, Cezar Benoliel  www.areaseg.com.br